Desde que começou a trabalhar como ator, há 20 anos, Tiago Rodrigues tem sempre abordado o teatro como uma assembleia humana: um local onde as pessoas se encontram, como num café, para discutir as suas ideias e partilhar o seu tempo. Cruzou-se pela primeira vez, quando ainda era estudante, em 1997, com a companhia tg STAN, confirmando o seu vínculo a ao trabalho colaborativo sem hierarquia. A liberdade que encontrou quando começou a trabalhar com este colectivo belga viria influenciar para sempre os seus trabalhos futuros. Em 2003, co-fundou a companhia Mundo Perfeito com Magda Bizarro, na qual criou e apresentou cerca de 30 espetáculos em mais de 20 países, tornando-se uma presença regular em eventos como o Festival d’Automne à Paris, METEOR Festival na Noruega, Theaterformen na Alemanha, Festival TransAmériques no Canadá, kunstenfestivalsdesarts na Bélgica, entre outros. Colaborou com um grande número de artistas portugueses e internacionais, como também coreógrafos e bailarinos. Foi, também, professor de teatro em várias escolas, nomeadamente a escola de dança belga PARTS, dirigida pela coreógrafa Anne Teresa De Keersmaeker, a escola suíça de artes performativas Manufacture e o projecto internacional École des Maîtres. Paralelamente ao seu trabalho em teatro, escreveu argumentos para filmes e séries televisivas, artigos, poesia e ensaios. Com as suas peças mais recentes, obteve um reconhecimento internacional alargado e diversos prémios a nível nacional e internacional. Algumas das suas obras mais notáveis são By Heart, António e Cleópatra, Bovary, Como ela morre e a sua última criação Sopro, estreada no Festival d’Avignon 2017. Quer combinado histórias reais com ficção, quer reescrevendo clássicos ou adaptando romances, o teatro de Tiago Rodrigues é profundamente enraizado na ideia de escrever para e com os atores, procurando a transformação poética da realidade usando as ferramentas teatrais. Essa aspiração é óbvia em projetos como a Occupation Bastille, a ocupação artística do Théâtre de la Bastille em Paris, por cerca de uma centena de artistas e espectadores que decorreu em 2016. Em 2018 foi galardoado com o XV Prémio Europa Realidades Teatrais. Diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II desde 2015, Tiago Rodrigues tem sido um construtor de pontes entre cidades e países e, ao mesmo tempo, um anfitrião e um defensor de um teatro vivo.

Antonio e Cleopatra

Se dizemos um dos nomes, o outro surge de seguida. A nossa memória não consegue evocar um sem o outro. Plutarco escreveu que, a partir deles, o amor passou a ser a capacidade de ver o mundo através da sensibilidade de uma alma alheia.
Misturaram amor e política e inventaram uma política do amor. São uma história de amor histórico. São um romance baseado em acontecimentos reais frequentemente romanceados. Shakespeare ergueu-lhes um monumento verbal que transformou na verdade mais verdadeira aquilo que nunca lhes aconteceu. No filme de Mankiewicz que levou a 20th Century Fox à falência, Richard Burton e Elizabeth Taylor foram o casal celuloide e real que eles nunca e sempre foram.
Neste espetáculo que Tiago Rodrigues escreve e dirige, Sofia Dias e Vítor Roriz são a dupla aqui-e-agora do que eles foram ali-e-então. São e não são António e Cleópatra. São o António a ver o mundo pelos olhos da Cleópatra. E vice-versa. Sempre vice-versa. Vice-versa como regra do amor. Vice-versa como regra do teatro. Este espetáculo é ver o mundo através da sensibilidade das almas alheias de António e Cleópatra.